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Emoção e razão na política: o perigo de votar como quem torce para um time

há 7 dias
6 min de leitura
Homem pensando - urna eletronica

Torcedor não analisa o time. Defende. E é aí que mora o problema quando o assunto é voto.

Gente, eu preciso falar sobre isso.

O primeiro turno passou e o Brasil acordou na segunda-feira do jeito que acorda depois de um clássico: uns comemorando, outros xingando, todo mundo provocando o "outro lado". Grupo da família pegando fogo. Almoço de domingo que terminou em silêncio. Amizade de anos estremecida por causa de um print. E olha, onde tem segundo turno, isso tudo volta com força total até o dia 25.

E antes que alguém pergunte: não, eu não vou falar de candidato. Nem de partido. Eu não tô aqui pra dizer em quem você deve votar. Tô aqui pra falar de uma coisa que vale pra todos os lados — e que, sinceramente, me preocupa muito mais do que o resultado de qualquer eleição: a gente está deixando a emoção votar no lugar da razão.


A gente jura que decide com a cabeça

Todo mundo gosta de acreditar que escolheu o voto com calma. Comparou propostas, pesou os prós e contras e, só então, decidiu.

Só que o cérebro não funciona bem assim.

Na maior parte das vezes, a emoção chega primeiro. Ela escolhe a direção — confiança, medo, raiva, esperança. A razão vem depois, correndo atrás, juntando argumentos pra justificar o que a emoção já decidiu.


O condutor é a razão e acha que está no comando. Mas quem decide pra onde vai, quase sempre, é o elefante. A emoção.

O psicólogo Jonathan Haidt explica isso com uma imagem que eu sempre mostro em minhas aulas: um elefante e o seu condutor. O condutor é a razão e acha que está no comando. Mas quem decide pra onde vai, quase sempre, é o elefante. A emoção.


Agora, presta atenção: a emoção não é a vilã dessa história. O neurocientista António Damásio mostrou que pessoas que perdem o acesso às próprias emoções têm enorme dificuldade de tomar até as decisões mais simples. Sentir faz parte de decidir.

O problema não é sentir. O problema é quando a emoção decide sozinha — e a razão só aparece no final pra assinar embaixo.


Quando o voto vira torcida

Pensa comigo no futebol. Ninguém escolhe o time analisando o elenco, né? A gente herda do pai, se apaixona numa final, e pronto: é pra vida toda. O torcedor defende o time quando ele joga mal, culpa o juiz quando perde e jura que o rival só ganha roubando. Eu já falei aqui sobre o que as emoções do futebol revelam sobre nós — e, no estádio, isso é lindo. Faz parte da festa.


O problema é quando a gente leva essa lógica pra política.

O voto vira camisa. O candidato vira ídolo. O partido vira time do coração. E aí acontece o que acontece com todo torcedor: a gente para de avaliar e passa a defender. A ferro e fogo. Contra tudo e contra todos.


Só que tem uma diferença enorme aí. O seu time de futebol não decide quanto vai custar o remédio da sua mãe. Não decide como vai ser a escola dos seus filhos, quanto você paga de imposto ou se o posto de saúde do seu bairro vai ter médico amanhã.

O candidato decide.


Por que isso faz tão mal

Você deixa de cobrar.

Torcedor fiel não exige resultado — aplaude de qualquer jeito. E político que sabe que tem torcida garantida não precisa entregar nada. A paixão cega tira de você o maior poder que um eleitor tem: o de cobrar.

Você passa a ter dois pesos e duas medidas.

O mesmo erro que é "inaceitável" no adversário vira "perseguição", "exagero" ou "mentira da imprensa" quando é do seu lado. E quando o critério muda conforme a camisa, já não é mais critério. É torcida.

Você vira alvo fácil.

Quem está tomado pela emoção acredita, compartilha e defende qualquer coisa que confirme o que já sente — inclusive notícia falsa. A razão desconfia. A torcida só quer munição.

Você perde gente que ama.

Na arquibancada, o torcedor do outro time é o inimigo. Na vida real, ele é o seu pai. A sua irmã. O seu sócio. O seu vizinho de vinte anos. Quem trata a eleição como guerra sai dela com relações quebradas — e essas não voltam no dia seguinte ao resultado.

Você adoece.

Passar semanas em modo ataque e defesa cobra um preço alto: ansiedade, insônia, irritação o tempo todo, uma raiva que não passa. O corpo não sabe que é "só política". Ele reage como se estivesse em perigo o tempo inteiro.


E tem gente que sabe muito bem disso

Campanhas, marqueteiros e algoritmos conhecem esse mecanismo de cor. Uma mensagem que te deixa com medo ou com raiva se espalha muito mais rápido do que uma que te faz pensar. E as redes vão te mostrando mais e mais daquilo que prende a sua atenção — e poucas coisas prendem tanto quanto a indignação.

Resultado? Você passa o dia vendo o pior do "outro lado" e chega no almoço de domingo já armado.


Se você se pegou atualizando notícia de cinco em cinco minutos, vale a pena reler por que menos informação pode significar mais conhecimento. Estar bem informado não é a mesma coisa que estar o tempo todo informado.


Como colocar a razão pra votar

Votar com a razão não é deixar de sentir. É fazer perguntas antes de decidir. E — aqui está o segredo — fazer as mesmas perguntas pra todos os candidatos. Inclusive o seu.

1. Propostas.

O que exatamente ele propõe? É concreto ou é só slogan? "Vou melhorar a saúde" não é proposta. Proposta diz o quê, como e com que dinheiro. E os planos de governo ficam registrados na Justiça Eleitoral: dá pra consultar no site DivulgaCand, do TSE.

2. Metas.

Dá pra medir? Tem prazo? Desconfie de quem promete "acabar com" ou "resolver de vez" qualquer problema grande em quatro anos. Isso está falando com a sua emoção, não com a sua razão.

3. Histórico.

O que essa pessoa fez quando teve cargo, mandato ou responsabilidade? Cumpriu o que prometeu da última vez? Como votou nos temas que importam pra você? O passado não garante o futuro, mas é a melhor pista que a gente tem.

4. Coerência.

O discurso de hoje combina com as atitudes de ontem? Com quem se aliou pra chegar até aqui? Muda de opinião conforme a plateia?

5. O teste da camisa trocada.

Esse é o mais importante de todos. Antes de defender ou atacar qualquer coisa, se pergunte com sinceridade: "se o candidato do outro lado tivesse feito exatamente isso, o que eu ia pensar?". Se a sua resposta muda, quem está votando é a emoção.


E com quem pensa diferente?

Uma coisa que eu aprendi em anos de escuta: por trás de quase todo voto existe um medo e uma esperança. Medo de perder o emprego, de não ter segurança, de os filhos não terem futuro. Esperança de mudança, de estabilidade, de ser visto.

Então, em vez de "como é que você tem coragem de votar nisso?", experimenta perguntar: "o que mais te preocupa hoje?". Você não precisa concordar com a resposta. Mas, quando você entende o que o outro sente, ele deixa de ser o rival da arquibancada e volta a ser quem sempre foi: alguém que você conhece e gosta.


E se a conversa não está levando a lugar nenhum, tudo bem dizer: "aqui no almoço a gente não fala de política". Isso não é fugir. É proteger a relação. Se dizer isso te dá culpa, esse texto pode te ajudar: como dizer não sem se sentir culpado.

Ah, e pros casais que votam diferente: quase sempre a briga não é sobre o voto. É sobre se sentir respeitado. É o mesmo mecanismo de quando casais brigam por dinheiro sem estarem brigando por dinheiro.


Quando é hora de pedir ajuda

Se a eleição está tirando o seu sono, atrapalhando o seu trabalho, ocupando a sua cabeça o dia inteiro — ou se o conflito na família ou no casamento já vinha de antes e só ganhou um assunto novo — talvez seja hora de conversar com um profissional. A terapia é um lugar onde você pode olhar pras suas emoções sem precisar defender ninguém.

Eu atendo online, em sessões individuais, de casal e de família. Se fizer sentido pra você, é só entrar em contato pelo site.


E agora me conta aqui nos comentários: você já se pegou defendendo alguém só porque era "do seu time"? E se esse texto fez sentido, manda pra aquela pessoa do grupo da família. Às vezes uma reflexão na hora certa muda o clima de um almoço inteiro.

No estádio, pode torcer à vontade. Na urna, quem precisa entrar em campo é a razão.

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