Eles rezavam e ainda assim sofriam: o que oito santos ensinam sobre ansiedade, depressão e terapia
Existe uma frase que eu escuto no consultório com uma frequência que já não me surpreende, mas continua me doendo:
Doutor, eu acho que minha ansiedade é falta de fé.
Quem diz isso quase sempre é uma pessoa que reza. Que vai à missa, que participa da comunidade, que tem uma vida espiritual séria. E que, além de carregar o peso da angústia, carrega um segundo peso: o de achar que está devendo alguma coisa a Deus. Como se a crise de pânico fosse um boletim ruim. Como se o vazio da manhã fosse prova de que ela não orou o suficiente.
Eu quero desmontar isso hoje. E vou usar um caminho que talvez surpreenda: a própria história da Igreja Católica.
O que as biografias mostram quando a gente lê com atenção
Antes de seguir, um cuidado que é de ofício. Eu não vou diagnosticar ninguém que morreu há oito séculos. Diagnóstico exige presença, escuta, contexto, e nenhum desses santos vai sentar na minha poltrona. O que eu posso fazer, e é bastante, é ler os relatos que eles mesmos deixaram e reconhecer neles descrições de sofrimento que qualquer clínico identifica na hora.
E o que está escrito ali é impressionante.
Os que viveram a angústia como antecipação
São Francisco de Sales
É lembrado como o santo da amabilidade. O que pouca gente conta é que, jovem, ele foi capturado por um pensamento que não largava: a certeza de que estava condenado. Não era uma dúvida ocasional. Era uma convicção que voltava sozinha, o dia inteiro, todos os dias. Ele parou de comer. Parou de dormir. Emagreceu a ponto de as pessoas ao redor temerem pela sanidade dele.
Quem trabalha com ansiedade reconhece esse desenho na hora: um pensamento intrusivo que se instala, que a pessoa não escolheu ter, que não cede ao argumento racional e que vai corroendo o corpo (sono, apetite, energia) até adoecer o organismo inteiro. Francisco não estava com pouca fé. Ele estava com fé demais rodando num circuito travado.
Santo Inácio de Loyola
Inácio viveu algo próximo. Depois de se converter, foi tomado por aquilo que se chamou de escrupulosidade: a tortura de sentir pecado grave em cada falha mínima, em cada pensamento, em cada gesto imperfeito. A perfeição virou prisão. Ele chegou a atravessar um período de desespero profundo, em que a própria vida perdeu valor aos olhos dele.
O que Inácio fez depois é o que mais me interessa. Ele nomeou aquele estado, chamou de desolação, e escreveu três orientações para quem estivesse dentro dele: não tomar decisões grandes enquanto durar a tempestade, não abandonar o que já tinha sido bem decidido antes dela, e segurar com paciência porque aquilo passa.
Leia de novo. É protocolo clínico. É exatamente o que eu oriento a um paciente em crise aguda: não decida nada importante agora, não desmonte o que você construiu lúcido, e confie que esse estado tem fim mesmo quando parece não ter. Um homem do século XVI chegou lá pela experiência, sem manual, sem consultório, sem nada além de prestar atenção na própria dor.
Os que viveram o vazio e a sensação de não valer nada
São João Maria Vianney
O Cura d'Ars passou a vida inteira convencido da própria inutilidade. Enquanto filas de gente atravessavam a França para ouvi-lo, ele não conseguia enxergar nenhuma relevância em si mesmo. Fazia um bem enorme e não sentia nada disso por dentro.
Essa desconexão entre o que a pessoa produz e o que ela sente sobre si é uma das marcas mais cruéis do sofrimento depressivo. Não adianta mostrar os resultados. Não adianta elogiar. O filtro está quebrado, e o elogio entra e some. É o mesmo mecanismo que aparece em quem se esgota trabalhando e ainda acha que não fez o suficiente.
Santo Agostinho
Agostinho conta em suas Confissões uma inquietação que atravessou anos: uma busca ansiosa por sentido que ele procurava em tudo que era externo e imediato, e que não sossegava nunca. A frase mais conhecida dele resume a coisa toda: ele estava buscando do lado de fora aquilo que já estava dentro. Qualquer pessoa que já tentou preencher um vazio com consumo, com trabalho compulsivo ou com relacionamentos em série entende essa sentença sem precisar de tradução.
O que tirou Agostinho do buraco não foi um milagre isolado. Foi ocupação com propósito, foi vínculo (a mãe, Mônica, e o bispo Ambrósio) e foi tempo. Três ingredientes que eu prescrevo até hoje.
As que atravessaram a dor e construíram sentido a partir dela
Santa Teresinha do Menino Jesus
Teresinha descreve, ainda menina, um período de adoecimento em que ficou acamada, apática, desconectada. Ela narra a recuperação como um acontecimento espiritual profundo, diante de uma imagem de Nossa Senhora. Eu não vou disputar com ela a leitura que ela fez da própria experiência, seria arrogância minha. O que eu observo é o que veio depois: uma mulher que transformou o que viveu numa proposta de amor nas coisas pequenas, no gesto miúdo, no cotidiano. Ela deu destino ao que sofreu.
Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)
Filósofa brilhante, nascida judia e ateia por escolha, Edith Stein atravessou anos de depressão severa. Ela registrou por escrito um período em que a própria continuidade da vida deixou de importar para ela. Era uma intelectual de primeira linha, assistente de Husserl, e nada disso a protegeu. Inteligência não é blindagem, e isso precisa ser dito em voz alta, porque muita gente de alto desempenho demora demais a pedir ajuda achando que deveria dar conta sozinha.
Edith encontrou um caminho, converteu-se, entrou para o Carmelo e foi assassinada em Auschwitz. Manteve lucidez e serenidade até o fim. Ela tinha aprendido, no corpo, a atravessar os ciclos escuros sem se perder neles.
Os que transformaram a própria dor em cuidado com o outro
São João de Deus
João de Deus foi internado num hospício, tratado como louco, submetido à violência que se praticava contra doentes mentais na época. Quando saiu, fez uma coisa que muda tudo: fundou uma casa para cuidar de pessoas como ele, mas com dignidade, com contato humano, com respeito. Virou padroeiro de quem trabalha em hospital.
Ele inventou empatia clínica quatrocentos anos antes de existir a palavra. Porque tinha estado do outro lado.
Santa Hildegarda de Bingen
Beneditina do século XII, Hildegarda escreveu tratados inteiros sobre doenças e tratamentos, incluindo estados que hoje associaríamos a quadros depressivos, e defendeu uma tese que a medicina levaria séculos para reconhecer: o modo de vida interfere no adoecimento. Alimentação, sono, ritmo, natureza. Uma freira medieval falando de estilo de vida como fator de saúde mental, e hoje isso está em qualquer diretriz séria.
O que eu quero que você tire daqui
Nenhum desses homens e mulheres tinha pouca fé. Eles são, literalmente, o padrão-ouro de vida espiritual da Igreja. E ainda assim sofreram, alguns por décadas, alguns até o fim.
Então a equação "adoeceu porque se afastou de Deus" cai por terra dentro da própria tradição que costuma sustentá-la.
Sofrimento psíquico não é castigo, não é fraqueza de caráter e não é dívida espiritual. É um fenômeno complexo, com fatores biológicos, história de vida, contexto, relações, sentido. Reduzir isso a "química do cérebro" é simplista demais, e reduzir a "falta de fé" é cruel e falso.
E aqui está o ponto que eu defendo sem hesitar: fé e tratamento não competem, se somam. A oração sustenta, dá sentido, dá pertencimento, dá a certeza de não estar sozinho num momento em que a solidão é o que mais machuca. Se você tem alguém assim por perto e não sabe o que dizer, eu já escrevi sobre como conversar com quem está sofrendo. A terapia trabalha o mecanismo: o pensamento que trava, o padrão que se repete, a memória que ainda dói, o comportamento que mantém o ciclo girando. São coisas diferentes, que atuam em camadas diferentes, e a pessoa não precisa escolher entre uma e outra.
Aliás, repare: quase todos esses santos tiveram alguém. Agostinho teve Ambrósio. João de Deus teve João d'Ávila. Nenhum deles se curou sozinho no quarto. Todos tiveram vínculo, escuta e orientação, que é exatamente o que um processo terapêutico oferece, com método e com técnica.
Se você reza e mesmo assim não consegue levantar da cama, você não falhou com Deus. Você está precisando de ajuda, e procurar essa ajuda é um ato de responsabilidade com a vida que você recebeu. Se não sabe por onde começar, aqui tem um guia sobre o que perguntar antes de escolher um terapeuta.
Continue rezando. E marque a consulta.
Se você está passando por um momento de sofrimento intenso, procure apoio profissional. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
























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