Terapia não é palanque: por que seu terapeuta não deve escolher lado por você.

Gente, imagine entrar num carro com GPS e o GPS decidir para onde você vai.
Você queria ir para casa. Ele te leva para onde ele acha melhor.
Parece absurdo, mas é exatamente isso que alguns terapeutas estão fazendo com os seus pacientes. E é sobre isso que eu quero conversar hoje.
Uma queixa que eu escuto cada vez mais
No consultório, recebo com frequência pessoas que já passaram por outro profissional e chegam contando a mesma história: "a psicóloga mandou eu largar meu marido". "Mandou eu sair do emprego." "Mandou eu cortar contato com a minha família." "Disse que eu estava errado por pensar do jeito que eu penso."
E nas redes sociais o fenômeno ficou ainda mais visível. Tem terapeuta que usa o próprio perfil profissional para escolher lado em eleição, para dizer em quem o paciente deveria votar, ou para tratar quem pensa diferente como se fosse um problema a ser corrigido.
Isso vale para qualquer lado do espectro político. O problema não é a opinião que o profissional tem. É o lugar onde ele resolveu colocá-la.
Terapeuta não manda
Vou ser direto: terapeuta não manda. Terapeuta é o GPS que mostra as rotas, os atalhos, os trechos perigosos. Quem escolhe o destino é você.
A terapia existe para ajudar a pessoa a enxergar com mais clareza o que ela sente, o que ela quer e o que ela está repetindo. A partir daí, ela decide. Às vezes decide sair de um casamento. Às vezes decide ficar e reconstruir, como eu discuti no texto Depois da traição: dá para reconstruir a confiança?. As duas decisões podem ser saudáveis. O que não é saudável é o terapeuta tomar essa decisão no lugar do paciente.
Quando o profissional diz o que a pessoa deve fazer da vida, ele tira dela justamente aquilo que a terapia deveria fortalecer: a autonomia.
O que diz o Código de Ética
Isso não é só a minha opinião. O Código de Ética Profissional do Psicólogo é claro. No artigo 2º, entre as coisas que são vedadas ao profissional, está induzir o paciente a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas ou religiosas no exercício da sua função.
Ou seja: transformar a sessão em palanque não é "posicionamento". É descumprir a ética da própria profissão.
Por que isso faz mal ao paciente
Pode parecer só uma questão de etiqueta, mas tem consequências clínicas sérias:
O paciente passa a esconder coisas. Se ele percebe que o terapeuta pensa diferente, começa a medir as palavras. E terapia em que a pessoa não pode ser inteira não funciona.
Cria dependência. Quem é acostumado a receber ordens volta para a próxima sessão perguntando "e agora, o que eu faço?" em vez de aprender a decidir.
Afasta quem mais precisa. Muita gente desiste de buscar ajuda porque tem medo de ser julgada pelo que pensa ou pelo que acredita.
Confunde emoção com convicção. Política já mexe com o nosso lado mais tribal, como eu mostrei em Emoção e razão na política. O consultório deveria ser o lugar onde a pessoa organiza isso, não onde ela é recrutada para um time.
Terapeuta tem opinião? Claro que tem
Terapeuta é gente. Tem voto, tem fé, tem valores, tem opinião sobre tudo. Eu também tenho as minhas, e atendo pessoas dos mais diferentes espectros políticos e religiosos. Respeito cada uma delas.
A diferença está na postura. Fora do consultório, cada um vive as suas convicções. Dentro dele, o centro da conversa é o paciente, não as crenças de quem está atendendo.
Sinais de alerta na sua terapia
Fique atento se o seu terapeuta:
diz o que você deve fazer da vida, em vez de ajudar você a pensar sobre isso;
critica ou ironiza suas crenças políticas ou religiosas;
usa a sessão para falar das próprias opiniões sobre eleição, partido ou governo;
faz você sentir que precisa concordar com ele para ser "saudável";
toma partido de um dos lados na terapia de casal, em vez de ajudar os dois a se entenderem.
Se você se reconheceu em algum desses pontos, vale conversar com o profissional sobre isso. E, se nada mudar, vale procurar outro.
Como escolher um terapeuta sério
Pergunte sobre a abordagem e o método. Um bom profissional explica como trabalha e o que você pode esperar do processo.
Observe se você se sente livre para falar. Inclusive para discordar dele.
Desconfie de respostas prontas. Terapia não é receita. Quem tem resposta para tudo antes de conhecer a sua história não está escutando.
Veja como ele se apresenta publicamente. O perfil profissional diz muito sobre a postura dentro do consultório.
Escrevi um guia mais completo sobre isso em Como escolher um terapeuta online: perguntas que você deve fazer antes de começar.
Para terminar
Busquem terapia. Busquem ajuda sempre que precisarem. Terapia muda vidas, e eu vejo isso todos os dias.
Mas procurem pessoas sérias, com credibilidade e comprometidas com a sua saúde, não com uma causa. Um bom terapeuta não quer que você pense como ele. Quer que você consiga pensar por você.
Se este texto fez sentido para você, compartilhe. E se você quer um espaço onde possa ser quem você é, sem julgamento, agende uma sessão online.
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Fred Esteves é psicoterapeuta, hipnoterapeuta clínico, analista comportamental, palestrante e escritor, fundador do Instituto Fred Esteves. Atende individualmente, casais e famílias, exclusivamente online.
























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