Rir quando dói: a desregulação emocional no TDAH
- Fred Esteves

- há 1 dia
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Por que a tristeza, às vezes, sai em forma de riso pra quem tem TDAH, e o que isso revela sobre o cérebro. Por Fred Esteves / Psicoterapeuta

“Fred, eu me sinto triste… mas começo a rir. Parece que estou debochando da minha própria dor, ou até rindo quando o outro está triste.”
Quando alguém me diz isso, eu não vejo frieza emocional. Eu vejo dor sem tradução.
Esse riso não é escolha. Não é falta de empatia. Na maioria das vezes, é o corpo tentando lidar com algo que ficou grande demais por dentro.
E sim... isso tem uma relação direta com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)
Quando o riso não combina com o sentimento
Existe uma ideia muito difundida de que rir é sinal de leveza. Mas quem vive isso sabe: às vezes o riso vem justamente quando a emoção aperta.
A pessoa está triste, tocada, sensibilizada… e o corpo reage com riso. Depois vem a culpa. A vergonha. O medo de ser mal interpretada.
O que poucos explicam é que esse fenômeno não fala sobre caráter. Ele fala sobre regulação emocional.
O que é desregulação emocional no TDAH?
O TDAH vai muito além da atenção. Ele envolve o funcionamento do sistema emocional.
No cérebro de quem tem TDAH:
as emoções surgem rápido
a intensidade é alta
o freio emocional demora a entrar
O córtex pré-frontal, responsável por organizar, modular e conter reações, funciona de forma menos eficiente. Quando a tristeza aparece, ela não chega aos poucos, ela invade.
Sem tempo para organizar o que sente, o sistema nervoso busca qualquer saída imediata. Às vezes, essa saída é o riso.
Rir não é o oposto de sentir
Aqui está um ponto crucial: ir não significa ausência de dor.
O riso pode funcionar como:
mecanismo automático de alívio
resposta nervosa ao desconforto
tentativa inconsciente de reduzir a tensão emocional
Muita gente com TDAH sente demais. O riso surge não porque a emoção é fraca, mas porque ela é intensa demais para ser sustentada naquele momento.
E quando o riso aparece diante da dor do outro?
Esse é um dos aspectos mais dolorosos para quem vive isso.
A pessoa percebe a dor do outro, se importa, quer acolher, mas o corpo reage antes do pensamento. O riso escapa. E depois vem o arrependimento.
Isso não é desrespeito. É desorganização emocional momentânea.
O problema é que, socialmente, esse comportamento é mal interpretado. E o julgamento externo machuca mais do que o sintoma em si.
O peso do julgamento e da culpa
Quem vive isso costuma ouvir frases como: "Você não leva nada a sério. ”Como pode rir numa hora dessas?”
Com o tempo, a pessoa aprende a:
esconder emoções
duvidar da própria sensibilidade
sentir culpa por sentir
E quanto mais culpa, menos regulação. É um ciclo silencioso.
O que realmente ajuda?
Ao longo da prática clínica, observo avanços consistentes quando a pessoa aprende a:
reconhecer e nomear emoções
identificar gatilhos emocionais
criar pequenas pausas antes de reagir
desenvolver consciência corporal
trabalhar regulação emocional em psicoterapia
Não se trata de “controlar o riso”. Trata-se de organizar a emoção que vem antes dele.
Uma nova compreensão muda tudo
Quando a pessoa entende que:
“Eu não rio porque não sinto…eu rio porque sinto demais.”
Algo começa a se reorganizar por dentro.
A culpa diminui. A autoconsciência cresce. E o caminho para relações mais saudáveis se abre.
Conclusão
Rir quando dói, especialmente em pessoas com TDAH, não é sinal de insensibilidade. Na maioria das vezes, é um pedido silencioso do sistema nervoso por alívio, compreensão e organização emocional.
Olhar para isso com empatia — interna e externa — transforma dor em consciência.
✨ E deixo a pergunta para você refletir com honestidade: esse riso que aparece nos momentos errados é falta de empatia… ou uma tentativa do seu cérebro de sobreviver a emoções intensas demais?






























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