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E agora? Como atravessar o pós-eleição sem se perder de si mesmo?

há 2 minutos
5 min de leitura
Homem sozinho em rua com cartazes de campanha no chão; título “E agora?”.

No último domingo, 25 de outubro, o Brasil escolheu seu presidente. Pelos dados oficiais do TSE, Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foi uma virada: no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio havia terminado à frente, com 47% contra 45%.

Os números foram divulgados. Mas a semana que se seguiu mostrou que, para o país e para muita gente, a eleição ainda não terminou por dentro.


Uma apuração que deixou dúvidas no ar

Na própria noite do resultado, o candidato derrotado afirmou que não reconhecia o resultado e que pediria à Justiça a anulação do segundo turno. O principal ponto da contestação é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou o horário de votação por duas horas. Outra acusação feita, a de que fiscais do partido teriam sido retirados da sala-cofre, foi negada pelo TSE, que informou que os fiscais estavam em outras salas da sede do tribunal.

Até aqui, integrantes do STF e do TSE avaliam, segundo relatos de bastidores, que não há base suficiente para invalidar o resultado. E vários partidos que apoiaram Flávio no segundo turno reconheceram a derrota e parabenizaram o presidente reeleito.

Eu não sou juiz eleitoral, e terapia não é palanque: este não é um espaço para decidir quem tem razão. O que me interessa aqui é outra coisa: a sensação de desconfiança é real para milhões de brasileiros, independentemente do que a Justiça venha a decidir. E sensações não resolvidas viram ansiedade, raiva e insônia.

Quando sentimos que algo "não foi justo", o cérebro entra em estado de alerta. Ele busca provas, revisita vídeos, compartilha mensagens, tenta encontrar uma explicação que devolva a sensação de controle. O problema é que, nesse estado, a gente fica vulnerável a qualquer informação que confirme o que já sentimos — verdadeira ou não.

Por isso, um cuidado de saúde mental neste momento é também um cuidado com a informação: buscar fontes oficiais, desconfiar de áudios e prints sem origem, e acompanhar o andamento das contestações pelos canais institucionais, em vez de pelo grupo da família.


O mercado também sentiu

Não foram só as pessoas que reagiram. Na segunda-feira seguinte à eleição, o dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,40, enquanto o Ibovespa caiu 13,88%. A queda foi tão forte que a Bolsa acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações, e o dia foi o pior pregão em mais de seis anos.

Parte do mercado esperava outro resultado e precisou ajustar suas posições às pressas. No dia seguinte, o dólar já começou em queda, e o Banco Central afirmou que a estabilidade financeira do país não está em risco.

Para quem investe, empreende, tem dívida em dólar ou simplesmente vai ao supermercado, essas manchetes acendem um alerta: "E o meu dinheiro? E o meu emprego? E o preço das coisas?"

Esse medo é legítimo. Mas vale lembrar que o mercado reage primeiro e pensa depois. Decisões financeiras tomadas no pico da emoção costumam ser as piores decisões. Vender tudo no desespero, sacar investimentos por impulso ou cancelar planos inteiros por causa de um dia de pânico raramente é uma boa estratégia. Se você tem decisões importantes a tomar, dê a si mesmo alguns dias e, se possível, converse com um profissional de finanças de confiança.


Nervos à flor da pele

Some tudo isso: uma disputa apertada, uma virada, uma contestação na Justiça, o dólar disparando, a Bolsa despencando, e um bombardeio de opiniões nas redes. O resultado é um país inteiro com o sistema nervoso ligado no máximo.

Talvez você esteja percebendo em si mesmo ou nas pessoas ao redor:

  • Irritação desproporcional com coisas pequenas;

  • Dificuldade para dormir ou acordar já pensando no noticiário;

  • Discussões que explodem do nada, em casa ou no trabalho;

  • Cansaço mental, como se não desse para desligar;

  • Vontade de sumir das redes, ou o oposto: não conseguir largar o celular.

Nada disso significa que você está "exagerando". Significa que o seu corpo está tratando a incerteza como uma ameaça. E o primeiro passo para baixar esse volume é perceber que ele está alto.


O luto que ninguém nomeia

Existe uma palavra que pouca gente usa para falar de eleição, mas que descreve exatamente o que muitos estão vivendo agora: luto.

Luto não acontece só quando alguém morre. Ele acontece quando perdemos algo em que depositamos esperança: um projeto, uma expectativa, uma imagem de futuro. Quem acreditou numa vitória e viu o resultado mudar na reta final pode estar passando por fases muito conhecidas: a negação ("isso não pode ser verdade"), a raiva ("isso foi roubado de nós"), a barganha ("e se a Justiça anular?"), a tristeza e, com o tempo, a aceitação — que não é concordar, mas conseguir seguir vivendo.

E aqui vai algo importante: o luto não é exclusividade de um lado. Quem venceu também pode estar enlutado por outras perdas: amizades que esfriaram, familiares que não falam mais, a sensação de viver num país partido ao meio.

Luto não se apressa. Mas também não pode ser vivido sozinho, trancado no quarto, rolando o feed. Ele precisa de palavras, de escuta e de tempo.

Se o seu candidato ganhou

Comemore, é legítimo. Mas lembre que, do outro lado, quase metade do país está vivendo frustração, medo e, em muitos casos, luto. A vitória não é licença para humilhar. Provocações e "eu avisei" não mudam a opinião de ninguém; só aprofundam o abismo. E o papel do cidadão, a partir de agora, não é torcer: é acompanhar e cobrar.


Se o seu candidato perdeu

Permita-se sentir. E lembre que uma derrota também pode ensinar a recomeçar. Ao mesmo tempo, proteja-se:

  • Limite o consumo de notícias e redes nos próximos dias. Informação é importante; ruminação, não.

  • Acompanhe as contestações pelos canais oficiais, e não por correntes de WhatsApp.

  • Volte para o que está ao seu alcance: trabalho, família, saúde, projetos.

  • Canalize, em vez de explodir. Participação, fiscalização e diálogo continuam existindo depois da eleição.


E as relações que ficaram arranhadas?

Tem irmão que parou de falar com irmão. Casal que evitou o assunto por meses. Amizades de décadas que esfriaram por causa de um comentário. É o que acontece quando votamos como quem torce para um time: quem pensa diferente vira adversário.

Pergunte a si mesmo: o que vale mais, ter razão ou ter a pessoa por perto?

Reaproximar não é concordar nem fingir que nada aconteceu. É reconhecer que aquela relação é maior do que um ciclo eleitoral. E, se o assunto ainda estiver quente demais, combine uma trégua: "Sobre política a gente conversa outro dia. Hoje eu só quero tomar um café com você."


Quando o "E agora?" vira ansiedade

Se a preocupação não passa, se vem acompanhada de insônia, aperto no peito, irritação constante ou dificuldade de concentração, não é fraqueza nem exagero. É o seu sistema nervoso pedindo cuidado, e a ansiedade tem tratamento.

A psicoterapia não muda o resultado de nenhuma eleição, nem o preço do dólar. Mas pode mudar a forma como você atravessa tudo isso.


O país continua. Você também.

A Justiça vai analisar o que precisa ser analisado. O mercado vai se ajustar, como sempre faz. Daqui a quatro anos haverá outra eleição. E, enquanto isso, existem contas para pagar, filhos para educar, sonhos para construir e pessoas para amar — de todos os lados.

O "E agora?" não precisa ser uma pergunta de medo. Pode ser uma pergunta de responsabilidade: o que eu, dentro do meu alcance, posso fazer para viver melhor e conviver melhor?

Essa resposta não depende de quem está em Brasília. Depende de você.

Se este texto fez sentido para você, compartilhe com alguém que está precisando ler isso hoje. E se o pós-eleição está pesando mais do que deveria, agende uma sessão online.


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Fred Esteves é psicoterapeuta, hipnoterapeuta clínico, analista comportamental, palestrante e escritor, fundador do Instituto Fred Esteves. Atende individualmente, casais e famílias, exclusivamente online.

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