Felca, o bullying e a fobia social: o que o relato dele ensina

Na madrugada de 20 de outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying, o youtuber Felca publicou o que ele mesmo chamou de o vídeo mais difícil que já fez. Durante pouco mais de uma hora, ele falou de algo que a maioria das pessoas carrega em silêncio: oito anos de bullying na escola e o diagnóstico de fobia social que veio com eles.
Como psicoterapeuta, assisti a esse relato com atenção. Ali está, contada em primeira pessoa e para milhões de pessoas, uma história que escuto com frequência no consultório. Por isso quero fazer aqui o que um vídeo não faz: ajudar você a entender o que está por trás dela e o que pode ser feito.
O que o Felca contou
O bullying começou aos 12 anos, em Londrina. Primeiro vieram os apelidos e xingamentos. Depois, a violência física: em um dos episódios, ele foi agredido por cinco colegas no banheiro da escola. Ele passava o intervalo sozinho, escondido. Chegou a ver uma lista com os alunos mais ridicularizados da escola, e o nome dele estava em primeiro lugar.
As consequências não ficaram no colégio. O medo de interagir com as pessoas fez com que ele deixasse de ir à faculdade. Na vida adulta, passou a usar álcool para conseguir gravar, dar entrevistas e ir a eventos. Ele se declarou alcoólatra e contou que parou de beber depois de uma queda em que quebrou duas costelas. Também falou que, na adolescência, chegou a ter pensamentos de morte.
Uma frase dele resume o peso de tudo isso: "Eu desperdicei a minha adolescência." Ele também disse que, depois do bullying, quem agrediu segue a vida, e quem foi agredido passa a vida inteira tentando compensar o que viveu.
Bullying não é "coisa de criança"
Ainda há muitos adultos que tratam o bullying como uma fase, uma brincadeira, algo que "fortalece". Não fortalece. Quando uma criança é humilhada de forma repetida, num lugar de onde não pode fugir, o cérebro dela aprende uma regra de sobrevivência: as pessoas são perigosas, e ser visto é arriscado.
Essa regra não fica no pátio da escola. Ela vai junto para a faculdade, para a entrevista de emprego, para o primeiro encontro, para a reunião de trabalho. A ferida da rejeição e a falta de pertencimento viram um jeito de enxergar o mundo. É assim que muitos casos de fobia social começam.
E não se trata de exceção. Pesquisas do IBGE mostram que quase 4 em cada 10 adolescentes brasileiros dizem já ter sofrido bullying.
O que é fobia social (transtorno de ansiedade social)
Fobia social não é timidez. A pessoa tímida fica desconfortável. A pessoa com fobia social sofre de forma intensa e passa a organizar a vida para fugir das situações sociais. É uma forma de ansiedade que tem nome, tem diagnóstico e tem tratamento.
Alguns sinais comuns:
Medo intenso de ser julgado, criticado ou humilhado em situações comuns, como falar em público, comer na frente de outras pessoas, fazer uma ligação ou entrar numa sala cheia;
Sintomas físicos fortes, como coração disparado, tremor, rosto vermelho, suor, falta de ar ou "branco" na hora de falar;
Evitar as situações, ou seja, faltar, desmarcar, inventar desculpas ou deixar oportunidades passarem;
Ficar remoendo depois, revivendo cada palavra dita e sentindo vergonha;
Usar "muletas" para conseguir participar, como álcool, remédio sem orientação ou celular como escudo.
O detalhe que o Felca trouxe sobre o álcool é muito importante. Beber para dar conta do social é um padrão comum, e é perigoso: alivia na hora, mas impede que a pessoa aprenda que consegue, e muitas vezes abre caminho para a dependência. Já escrevi sobre como a neurociência pode ajudar a superar o alcoolismo.
O que funciona de verdade
A parte boa: fobia social tem tratamento, e com bons resultados. O próprio Felca mostrou o caminho que costuma funcionar, quando falou do desafio de 90 dias aceitando convites que antes ele recusaria, da academia e do teatro.
Na clínica, chamamos isso de exposição gradual: enfrentar o medo de forma planejada, aos poucos e com apoio, até que o cérebro reaprenda que aquela situação não é uma ameaça. Junto com isso, a psicoterapia trabalha:
As crenças que o bullying deixou, como "eu sou ridículo" ou "vão rir de mim";
A regulação do corpo, com técnicas para baixar a ansiedade na hora em que ela aparece;
As memórias traumáticas, que podem ser ressignificadas, inclusive com recursos como a hipnoterapia clínica;
A autoestima, reconstruída com base no que a pessoa é, e não no que disseram dela.
Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também faz parte do tratamento. Uma abordagem não exclui a outra. E se você está procurando ajuda, vale ler como escolher um terapeuta online.
Para pais e escolas
Se você é pai, mãe ou educador, fique atento aos sinais:
A criança não quer ir à escola, sente dor de barriga ou de cabeça antes da aula;
Volta com material estragado, machucados sem explicação ou com fome (pode estar perdendo o lanche);
Fica isolada, calada, irritada ou muda de comportamento de repente;
Evita falar sobre os colegas ou sobre o que acontece no intervalo.
Diante disso, escute sem minimizar. Frases como "ignora que passa" ou "você tem que se defender" fazem a criança se sentir sozinha. Procure a escola, registre o que está acontecendo e busque ajuda profissional. E lembre: muitas vezes o próprio agressor também precisa de cuidado.
Quando o bullying muda de endereço
Depois do vídeo, o Felca recebeu muito apoio. Mas também recebeu ataques e ofensas pesadas de pessoas que esperavam outro tipo de conteúdo e se frustraram. Alguém expõe publicamente a dor de anos de humilhação e, em resposta, é humilhado de novo.
Isso mostra algo que vejo todos os dias: o bullying não termina quando a escola acaba. Ele muda de endereço. Hoje está nos comentários, nos grupos e nas redes sociais, e é praticado muitas vezes por adultos que jamais aceitariam que um filho fosse tratado assim. Quando a emoção toma o lugar da razão, a gente esquece que do outro lado da tela existe uma pessoa.
Para quem tem fobia social, esse tipo de reação confirma o medo mais profundo: "se eu me mostrar, vão me atacar." Por isso, antes de comentar, vale uma pergunta simples: eu diria isso olhando nos olhos dessa pessoa? Discordar é legítimo. Ofender quem está falando da própria saúde mental não é opinião. É agressão.
Você não precisa esperar anos
O Felca levou mais de uma década para contar a própria história. Ele mesmo disse que se escondeu por tempo demais. Se você se reconheceu neste texto, saiba que não precisa esperar tanto. O que o bullying ensinou pode ser desaprendido, e a vida que ficou em pausa pode ser retomada.
Se você está passando por pensamentos de morte ou de autolesão, não fique sozinho com isso. Ligue para o CVV pelo 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergências, procure o SAMU (192) ou o pronto-socorro mais próximo. Se é alguém próximo que está sofrendo, veja como falar com quem está sofrendo.
Se este texto fez sentido para você, compartilhe com um pai, uma mãe ou um professor que precisa ler isso hoje. E se você sente que a vergonha e o medo ainda decidem por você, agende uma sessão online. Ser visto pode voltar a ser seguro.
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Fred Esteves é psicoterapeuta, hipnoterapeuta clínico, analista comportamental, palestrante e escritor, fundador do Instituto Fred Esteves. Atende individualmente, casais e famílias, exclusivamente online.
























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